“A IA vai roubar nossos empregos!”
Será?
Talvez alguns. Provavelmente vai transformar muitos. E também deve criar atividades e funções que hoje sequer fazem parte da nossa rotina.
Mas antes de decidir se a Inteligência Artificial é vilã ou salvadora do mercado de trabalho, talvez exista uma pergunta mais interessante:
O que exatamente fazemos hoje que continuará precisando ser feito da mesma forma amanhã?
Porque trabalho, profissão, função e tarefa não são exatamente a mesma coisa. E essa diferença importa bastante nesta discussão.
Seu emprego é uma única atividade?
Pense na sua própria rotina.
Quantas coisas diferentes você faz durante um dia de trabalho?
Lê e-mails. Responde mensagens. Analisa informações. Preenche sistemas. Participa de reuniões. Produz documentos. Confere dados. Conversa com clientes. Resolve problemas. Toma decisões. Organiza prioridades. Ufa!!
Dependendo da função, algumas dessas atividades exigem conhecimento técnico. Outras exigem experiência. Algumas são repetitivas. Outras dependem de interpretação, relacionamento, negociação ou julgamento.
Então quando alguém afirma que “a IA vai substituir uma profissão”, talvez esteja colocando dentro da mesma “cumbuca” atividades muito diferentes.
A IA não precisa assumir 100% de uma função para transformá-la profundamente. Basta mudar uma parte relevante do trabalho.
Algumas tarefas vão desaparecer?
Oras! É bastante provável, eu diria até: claro que sim!
E isso não começou com a IA.
Planilhas eliminaram parte do trabalho que antes era realizado manualmente. Sistemas integrados reduziram controles repetitivos. Máquinas modificaram linhas inteiras de produção. Internet, comércio eletrônico, aplicativos e automação mudaram atividades e profissões.
Algumas desapareceram. Outras mudaram. Novas surgiram.
Com a IA, a velocidade pode ser diferente e o alcance certamente merece atenção, mas a transformação do trabalho pela tecnologia não começou agora.
O que muda é nossa capacidade de automatizar também atividades que até pouco tempo pareciam depender exclusivamente de trabalho intelectual humano.
E aí a conversa fica mais interessante.
Se a IA faz em cinco minutos, por que eu fazia em duas horas?
Essa pergunta pode incomodar. Mas deveria ser feita.
Se uma atividade consumia duas horas porque alguém precisava localizar informações, organizar dados, comparar documentos e produzir uma primeira análise, e agora parte disso pode ser feita em minutos, talvez o valor daquela pessoa nunca tenha estado nas duas horas gastas.
Talvez estivesse em saber o que procurar. Em validar o resultado. Em perceber que alguma coisa não faz sentido. Em compreender o contexto. Em decidir o que fazer depois.
A ferramenta reduz o tempo de execução.
Isso não significa automaticamente eliminar quem executava. Mas certamente pode mudar aquilo que se espera dessa pessoa.
Então a IA é apenas uma ferramenta?
Eu teria cuidado com o “apenas”.
Uma calculadora também é uma ferramenta. Um ERP é uma ferramenta. Uma máquina industrial é uma ferramenta.
E ferramentas podem mudar completamente a forma como um trabalho é realizado e uma ferramenta, pode ser boa ou ruim dependendo de quem e como é utilizada.
A IA já consegue produzir textos, resumir documentos, gerar imagens, escrever código, analisar conjuntos de informações, apoiar atendimento, estruturar ideias, comparar alternativas e automatizar partes de processos.
Ignorar essa capacidade porque “é só uma ferramenta” pode ser tão equivocado quanto imaginar que ela substituirá todo mundo amanhã.
Nem apocalipse. Nem ingenuidade.
Quem corre mais risco?
A resposta fácil seria: quem executa tarefas repetitivas.
Mas acredito que seja incompleta.
Também existe risco para quem possui conhecimento, mas transforma esse conhecimento apenas em atividades que uma tecnologia passou a executar com eficiência suficiente.
E existe outro risco ainda mais próximo:
ser substituído não necessariamente pela IA, mas por alguém que sabe utilizá-la melhor.
Isso não significa que todo profissional precise virar especialista em Inteligência Artificial.
Significa que entender como essas ferramentas podem afetar sua atividade começa a fazer parte da própria profissão.
Um contador não precisa desenvolver modelos de IA. Um engenheiro também não. Um advogado, médico, gestor, vendedor ou professor tampouco.
Mas ignorar ferramentas capazes de alterar significativamente a forma como parte do trabalho é executada parece uma estratégia pouco confortável para qualquer uma dessas profissões.
E as empresas?
Para as empresas, a discussão também não deveria começar por:
“Quantas pessoas conseguimos substituir?”
Essa pode até parecer uma pergunta financeiramente atraente. Mas é limitada.
Talvez a pergunta mais útil seja:
“O que nossa equipe conseguiria fazer melhor se parte do trabalho operacional consumisse menos tempo?”
Atender mais clientes? Analisar mais cenários? Reduzir erros? Responder mais rápido? Documentar melhor? Criar novos serviços? Tomar decisões com mais informação?
A mesma tecnologia pode ser utilizada simplesmente para reduzir custo ou para aumentar capacidade.
Às vezes as duas coisas.
A decisão é de negócio, não apenas tecnológica.
Mas haverá desemprego?
Eu seria irresponsável afirmar que nenhuma função será eliminada.
Algumas serão.
Também seria precipitado afirmar exatamente quantas, quais e em que velocidade.
Tecnologias não chegam a todas as empresas ao mesmo tempo. Custos, regulamentação, cultura, infraestrutura, confiabilidade, aceitação dos clientes e características de cada atividade alteram bastante esse processo.
Além disso, produtividade não se transforma automaticamente em desemprego. Ela também pode reduzir preços, aumentar demanda, permitir novos produtos, ampliar mercados e criar outras atividades.
Mas existe uma coisa que considero bastante provável:
muitas funções continuarão existindo, mas não serão executadas da mesma maneira.
E talvez esse seja o ponto mais importante para quem está trabalhando hoje.
O que fazer então?
Primeiro, entender.
Não precisa sair correndo para utilizar toda ferramenta nova que aparece. Aliás, provavelmente não deveria.
Mas vale observar sua própria rotina:
- Quais atividades são repetitivas?
- Onde gasto tempo procurando ou organizando informação?
- Que tarefas poderiam ser parcialmente automatizadas?
- Onde o julgamento humano continua sendo essencial?
- Que decisões exigem contexto que a ferramenta não possui?
- O que eu poderia entregar melhor se determinadas tarefas consumissem menos tempo?
- Quais competências ganham importância quando a execução fica mais rápida?
Depois, experimentar com critério. Aprender. Validar.
E principalmente entender onde a tecnologia realmente gera valor.
Afinal, a IA vai roubar nossos empregos?
Alguns, provavelmente.
Vai mudar muitos outros.
E pode criar oportunidades que ainda não conseguimos enxergar completamente.
Mas talvez exista uma pergunta ainda mais pessoal:
Se parte do trabalho que faço hoje puder ser automatizada, o que eu consigo fazer com o tempo, conhecimento e capacidade que isso libera?
A resposta não depende apenas da IA.
Depende das empresas. Depende das profissões. Depende das pessoas.
E, sim, depende de nós.
Inteligência Artificial não é apenas uma discussão sobre tecnologia. É também uma discussão sobre produtividade, competências, processos, estratégia e futuro dos negócios. FLEURISILVA | Gestão e Inovação — www.fleurisilva.com.br




